Ciência e Tecnologia: Pequenas equipes Inovam, Grandes equipes Desenvolvem

Para fazer ciência, é preciso conseguir financiamento. Para conseguir financiamento, é preciso publicar muito e ter publicações com um grande impacto. Mas o que é impacto na ciência? Algumas métricas de avaliação consideram que impacto é sinônimo de muitas citações.

Já está bem demonstrado que grupos de pesquisa com equipes grandes trazem muitos benefícios profissionais para seus membros, com um maior número de publicações e mais citações, uma vez que grupos maiores têm a capacidade de resolver problemas complexos e que requerem soluções interdisciplinares.

No entanto, há poucas evidências que suportem a noção de que equipes maiores sejam o ambiente ideal para promover a descoberta de novos conhecimentos ou a invenção de novas tecnologias.

De fato, já se sabe que indivíduos em grandes grupos costumam com mais frequência gerar menos ideias, acessar menos e geralmente rejeitar perspectivas externas e, ainda, costumam ter seus próprios pontos de vista, neutralizados pelos outros membros do grupo.

Essas questões levaram pesquisadores a se perguntarem se existem diferenças entre equipes grandes e pequenas, no que diz respeito ao potencial da pesquisa gerada levar a avanços científicos e tecnológicos de fato impactantes.

O que eles acharam foi inusitado e revelador.

Pra responder a pergunta, eles recorreram a uma enorme quantidade de informações: (1) 42 milhões de artigos, contidos na Web of Science; (2) 5 milhões de patentes, do Escritório de Marcas dos EUA; e (3) 16 milhões de projetos de softwares, disponíveis na plataforma GitHub.

Para cada conjunto de dados, eles então avaliaram o grau em que cada trabalho efetivamente inova o campo da ciência ou tecnologia ao qual ele pertence. Mas o que é uma inovação de fato, ou uma inovação disruptiva, como é comumente chamada? Uma inovação introduz algo novo (uma descoberta científica, uma invenção tecnológica) que ofusca trabalhos anterior, sobre os quais ela foi construída, rompendo a influência do que foi produzido anteriormente, sobre o que se segue.

Para avaliar o quão disruptivo era um trabalho, eles utilizaram uma medida (variando de -1 a +1) que levava em conta se os trabalhos anteriores citados por ele, eram ou não citados pelos novos trabalhos que o seguiam.

Assim, se um trabalho passava a ser citado exclusivamente por seus sucessores (ofuscando as referências anteriores), ele era considerado disruptivo (com valores positivos de no máximo +1). Por outro lado, se ele fosse citado juntamente com os trabalhos de referência, ele era considerado apenas um desenvolvimento de uma ideia anterior (recebendo valores negativos de até -1).

Utilizando este cálculo, eles classificaram todos os artigos científicos, patentes e softwares das bases de dados utilizadas, e plotaram um gráfico com a frequência observada de trabalhos com as diferentes medidas possíveis.

Para validar essa medida, eles fizeram várias avaliações. Primeiro, eles entrevistaram um grupo de pesquisadores em diferentes áreas, perguntando exemplos de trabalhos considerados disruptivos ou que apenas desenvolviam ideias anteriores. Identificaram, também, todos os trabalhos disruptivos que deram o tão famoso prêmio Nobel a seus autores. Ainda, identificaram trabalhos que nominavam em seus títulos, autores citados no trabalho. Por último, avaliaram revisões bibliográficas e os respectivos trabalhos citados pelas mesmas.

Conforme esperado, trabalhos relacionados a prêmios Nobel, indicados como disruptivos por pesquisadores entrevistados, ou citados por revisões, possuíam valores positivos (à direita do gráfico), indicando a validade da abordagem; enquanto que trabalhos de revisão, citando outros trabalhos ou aqueles indicados pelos pesquisadores entrevistados, como sendo apenas desenvolvimentos de outras ideias, possuíam valores negativos (à esquerda do gráfico).

Em seguida, eles identificaram o tamanho do grupo de autores responsáveis pelos trabalhos, e avaliaram qual a relação entre o número de pessoas no grupo e o impacto de sua produção, primeiramente avaliando apenas o número médio de citações por trabalho do grupo e, em seguida, pela medida de disrupção avaliada por eles.

Como esperado, o número de citações aumentava com o tamanho do grupo, no entanto, a revelação veio quando eles avaliaram o quão disruptivo eram os trabalhos produzidos pelos grupos, em relação ao número de pessoas no mesmo.

Incrivelmente, ficou claro que os grupos pequenos inovavam com trabalhos disruptivos (com novas descoberta científica ou invenção tecnológicas), enquanto grupos maiores desenvolviam essas ideias ou tecnologias apresentadas anteriormente.

Ainda, ao avaliarem a popularidade (isto é, a média de citações) das referências citadas pelos trabalhos de grupos de diferentes tamanhos; eles descobriram que grupos maiores citam referências mais populares, ao contrário dos pequenos grupos. Ainda, ao avaliarem a idade das referências (isto é, o tempo desde sua publicação) eles descobriram que grupos menores costumam ir muito mais a fundo, citando referências mais antigas, ao contrário dos grupos grandes.

Apesar destes achados, destacarem as diferenças entre grupos pequenos e grandes, revelando a importância de cada um na descoberta ou no desenvolvimento de novas ideias ou tecnologias disruptivas, ao longo do tempo, o tamanho médio dos grupos de pesquisa vem aumentando e, enquanto a porcentagem de os grupos maiores vem aumentando, a de grupos pequenos, vem diminuindo.

A importância deste trabalho, é que ele mostra que as agências de fomento à pesquisa, tem de mudar para poder contemplar tanto os grupos grandes e estabelecidos, como os grupos pequenos, com menos recursos.

Large teams develop and small teams disrupt science and technology.

Wu L, Wang D, Evans JA.

Nature. 2019 Feb;566(7744):378-382. doi: 10.1038/s41586-019-0941-9. Epub 2019 Feb 13.PMID: 30760923